Ao ler Mapas do Acaso, por várias vezes o autor (Humberto Gessinger) mencionava o termo "fantasmas". Não sei se a minha interpretação de reles leitora-fã condiz com a intenção original do HG (e não que haja algo de errado nisso, já que todas as interpretações são subjetivas), mas percebi os fantasmas como aquele sentimento que temos de coisas que ficaram para trás e pensamos como seria se... ou como estaríamos se.... São suposições que fazemos de algo que não aconteceu (e tiveram seus motivos para, ainda que não saíbamos) e que nós temos intimamente quase que uma necessidade, em certos momentos, de pensar, de imaginar como seria. Normalmente quando essas coisas passadas correram de forma extremamente diferente de como esperávamos (e/ou gostaríamos)...


Estes fantasmas também podem ser projeções de futuro. Mais uma vez voltando às ideias do HG: "O passado É. O futuro SÃO." (em seu BloGessinger, em uma das suas postagens). Se os fantasmas do que poderia ter sido (passado) já são muitos, os do futuro são quase infinitos... Há tantos sonhos (pra sonhar, há tantas vidas a viver), tantas possibilidades: as reais, as que criamos, as que imaginamos, as impossíveis, as possíveis, as impossíveis que tornamos (ou tornam-se) possíveis, as que tentamos e não conseguimos, as que simplesmente acontecem... São vários os caminhos que um mesmo desejo pode tomar. E nós mudamos tanto ao longo deste percurso, mudamos nossos sonhos, em todo, em partes... Nós mudamos.


Também tenho os meus fantasmas, arrisco a afirmar que todos nós.


Estranho perceber que lembranças de uma mesma época podem ser boas e más (ao mesmo tempo). O que faz perceber que o que vivemos não está tão correlacionado entre si e com as nossas épocas (momentos), elas existem em paralelos, elas contêm lógicas e despertam sentimentos diferentes em nós. E percebe-se que, na verdade, existe uma prerrogativa para que tendamos a entender que nós nunca queremos, realmente, voltar ao passado, o que de certa forma até conforta.


Parece estranha essa opinião, mas acho que a dificuldade que pode existir em considerá-la relevante é que nós, quando sentimos de algo saudades, vemos deste algo apenas os pontos positivos, ou vemos os negativos minimizados - ou por um pouco de esquecimento ou como uma forma inconsciente de sustentar aquele sentimento, que muitas vezes "sabe tão bem", da nostalgia. Normalmente vemos os fatos dissociados dos outros que ocorreram no mesmo fragmento temporal de nossas vidas. E daí a ilusão de que gostaríamos de voltar... Gostaríamos de voltar para o passado como ele era, ou gostaríamos de voltar para ele, mas com alguns ajustes?


Alguns fantasmas tentam convencer-nos que voltar no tempo seria bom. Em momentos, principalmente, de debilidade emocional (no presente) onde nós viajamos para vidas passadas que nunca existiram de fato, dimensões apenas do plano do que poderia ter sido (mas que nunca foi).


Tendemos a não nos satisfazermos com o que temos. Queremos mais, outras vezes até menos. Nosso presente de hoje poderia ser só um fantasma, da mesma forma que o futuro que imaginamos pode ser um fantasma que vai nos bater a porta às vezes no real futuro que teremos.

O impossível ignorado
Um amor cheio de amor
Um querer, um desejo
tão completo, tão incerto.
Um nada que é tudo,
um tudo que invade
toma, toca, vibra, sangra
num silêncio gritante
numa sintonia que irradia.
Encantadora complicação.
Desafio ao tempo e espaço.
Delírios mudos, distantes e profundos.
Noites sem fim, planos do eterno.
Adeus adiados
Sentimentos em pares
pairando no ar.

Flávia Sulz. 12jan2012. 6h.
Salvador - BA.
P/R.

Humberto Gessinger nasceu em Porto Alegre, em 24 de dezembro de 1963. Em 1984, com colegas da Escola de Arquitetura da UFRGS, montou a banda Engenheiros do Hawaii. Com 18 discos e 5 DVDs lançados, o grupo faz shows por todo Brasil e já se apresentou nos EUA, Japão, Rússia, Argentina e Uruguai. Além de cantor e multi-instrumentista, é compositor, tendo mais de 150 canções gravadas.


Mapas do Acaso - 45 Variações sobre um mesmo tema
Autor: Humberto Gessinger
Editora Belas-Letras Ltda.
2011, Caxias do Sul, RS.



Comentários de Leitora
Livro fácil de ler. Colorido, divertido, soa como uma conversa. Para os fãs do Humberto músico/compositor, um presente.

Comprei o livro após descobrí-lo por acaso na internet e ler o que viria na contra-capa: uma descrição cheia de ligações com frases clássicas das músicas do HG, títulos de álbuns... Amor à primeira vista. Pouco importava-me sobre o que ao certo falava o livro, queria lê-lo. Acabei comprando logo os dois, Pra Ser Sincero, que ainda não li e este, Meu Pequeno Gremista não me chamou atenção pelo fator futebol - embora confesse nem saber do que se trata de fato. Decidi ler primeiro o Mapas do Acaso (na ordem de descoberta e não de lançamento), e já no início o Humberto "abençoa" a minha opção dizendo ao leitor que a ordem de leitura quem faz é ele, não há continuidade (como em uma conversa).


Adorei os trechos de músicas entre um texto e outro... Enquanto as lia, as músicas tocavam em minha mente. Li-o inteiro sem trilha sonora, e ao mesmo tempo como se a tivesse, variada de acordo com a playlist estabelecida pelo autor.

A disposição gráfica do texto, as imagens e as cores deixaram o livro belíssimo. Além dos trechos de músicas, existem alguns textos do Gessinger que foram publicados em outras épocas e outros locais (em letra itálica laranja) dentro da parte "Âncora - Notas Mentais" (parte azul) na qual o autor escreve notas mentais para a próxima vida e discorre sobre lembranças, opiniões, viagens internas e fantasmas. Na segunda parte "Velas" (parte laranja), 45 letras de músicas, daí "45 variações sobre um mesmo tema", e alguns comentários. Nessa segunda parte também existem algumas letras em imagem dos manuscritos e datilografados.

Recomendo o livro para fãs do Engenheiro do Hawaii.

"Falar do passado ou do futuro é a melhor forma de descrever o presente." / "A estrada é tão importante quanto o destino." / "Qualquer tentativa de mensurar o tempo acerta e erra por igual." / " 'E se' é uma usina criadora de fantasmas."


Quando refiro-me ao que estou vivendo agora como uma adaptação e não uma readaptação tem muita razão de ser. Eu voltei para uma realidade parecida com a que vivia outrora, mas a semelhança é apenas "espacial". Não sou mais a mesma, não quero e nem penso as mesmas coisas (e ainda bem) e consequentemente vivo de outra forma, já há algum tempo. Comparando a um passado menos distante, tenho tentado adaptar a nova situação a algo anterior, já que parecia dar certo (sentia-me bem, provavelmente era feliz) o que seja talvez uma tarefa impossível, e ai vêm as novas reflexões a cerca da vida, a vivida diariamente (a rotina?). Novas situações exigem novas posturas e isso não implica necessariamente em uma mudança de focos (objetivos).

Na minha vida passada (aquela não tão distante pois mudou a situação mas sou quase a mesma) tinha algo que eu achei que de qualquer forma que eu estivesse vivendo este algo iria manter-me bem, sozinho. Mas as novas situações mostraram que até isso seria diferente e foi então que percebi (de forma concreta) que uma coisa só nunca basta. A gente sempre precisa estar bem em vários "setores" do nosso ser, por que no fundo a gente nunca consegue estar, o tempo todo, no melhor momento de todos esses setores, e é nesse jogo de "pesos e contrapesos" o que nos deixa em (um certo) equilíbrio.

Eu comecei a pensar a minha vida (a de agora, a única que tenho) tentando não apenas voltar ao que "dava certo" na vida passada mas fazer isso de forma mais madura, com mais foco e responsabilidade sobre o meu futuro, de modo que eu "fique bem" agora e mais à frente melhor.

Todas as minhas reflexões (ou conflitos internos, talvez seja mais apropriado) sobre o momento de "fazer o meu futuro" foram rendendo algumas conclusões (acho que ainda não definitivas, vamos ver). De fato, o que o ser humano faz a vida toda? (Ou pelo menos é aconselhado e tem a noção de que devia fazer). Ele tenta, dentro das suas vontades e possibilidades otimizar o seu tempo de vida. Ele tenta viver bem (ser feliz), da melhor forma possível, mesmo sabendo que um dia acabará. Quando ele nasce há alguém que faça isso por ele, com o tempo ele próprio vai fazendo e depois, até que realmente acabe, ele continua fazendo isso, talvez com menos força (ainda vou saber), acho que seria isso o "aproveitar" a vida.



"Um ciclone atravessou as nossas vidas,
de repente tudo fora do lugar...
Hoje eu sei só a mudança é permanente,
de repente tudo está no seu lugar!"
(Duas Noites no Deserto, Engenheiros do Hawaii, álbum Campo Minado.)

Como sabemos, Ted está projetando o novo prédio da GNB que destruirá o Arcadian e sua maior inimiga nesta questão é Zoey, que agora é sua namorada. O namoro de Ted e Zoey é marcado por desafios mútuos, o oposto de Marshall e Lily. A esse respeito, aliás, Marshall decide se demitir da GNB e passa a trabalhar como advogado ambiental da NRDC, para ganhar nada (trabalho voluntário), e Lily o apoia o tempo inteiro.

Ted não admite que o namoro com Zoey e os desafios sucessivos não são agradáveis, enquanto Lily também não admite que o fato de o marido passar a trabalhar como voluntário está a matando. Marshall cede o seu apartamento para que aconteça uma festa da NRDC, Lily pede a Ted para ir com ela buscar um dos convidados da festa. Ted admite a Lily que está infeliz com Zoey, por não ter apoio dela nunca. Chegando ao aeroporto, Lily diz a Ted que vai embora e que realmente não está suportando apoiar Marshall a todo custo.

Ted chega a festa com o convidado, e quando está para contar a Marshall o que aconteceu, Lily aparece. Marshall acaba desistindo de trabalhar como voluntário e promete a Lily que encontrará um trabalho remunerado. Ted percebe que, mesmo gostando de Zoey, não será capaz de aturar a situação por 50 anos.

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Quem escreve

Baiana, 21 anos e estudante de Direito. Blogueira nas horas vagas.

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